História da Terceira Alfândega de Salvador, sede atual do Mercado Modelo
A Terceira Alfândega de Salvador, prédio histórico que atualmente abriga o célebre Mercado Modelo, foi construído a partir de 1854, inaugurado em 1861 e definitivamente concluido em 1868. Bem em frente ao Elevador Lacerda, na atual Praça Cairu, já existia o prédio da Segunda Alfândega, construída 1746, durante o governo do Conde das Galveas, cuja área se havia tornada limitada em virtude do crescimento acelerado do comércio no século XIX. Os aterros necessários para construção da nova Alfândega, em frente à antiga e a beira mar, foram realizados a partir de 1843.
A nova Casa da Alfândega, a terceira na história da cidade, obra em estilo neoclássico, adotaria formas construtivas consagradas na cidade a partir da segunda metade do século XIX, com um corpo quadrado e telhado de duas águas, trazendo anexado, ao fundo, um pavimento de planta semicircular, culminando em uma cobertura em formato cônico, compondo uma rotunda, sem comparativo em toda a arquitetura nacional. Esta parte do prédio era utilizada para o desembarque das mercadorias, cujo controle era feito no salão superior, enquanto que o corpo principal era utilizado como depósito. Uma ponte de madeira localizada ao fundo da rotunda, depois substituída por outra de ferro no formato de "T", servia para a atracação das embarcações. A área total construída do edifício compreende 8410 m², sendo 69 metros de comprimento e 47 metros de largura.
Foi construído ainda um pavilhão menor, formado de dois pavimentos para a Guardamoria. A casa de máquinas e a casa dos guindastes ficaram situadas no extremo oposto. Essas construções ocupavam o espaço entre a velha e a nova alfândega, onde existiu ainda um relógio de sol. Tudo isso, junto com a antiga Alfândega, seria demolido em 1914, após a ampliação do porto de Salvador e a construção de novos armazéns, para onde foram transferidas a carga e descarga de mercadorias. O local seria destinado à construção de uma praça, ajardinada com recursos levantados junto ao comércio, através da iniciativa do Sr. Antônio Linhoff de Brito, resultando na atual Praça Visconde de Cayru.
A Casa da Alfândega esteve em vias de ser demolida em 1941, quando a Receita Federal, proprietaria do prédio, chegou a pretender construir uma nova sede no seu lugar, mas por sorte essa obra foi cancelada. Em 1958, após a construção do novo prédio da Delegacia Fiscal na Praça Marechal Deodoro (Mercado do Ouro) a maioria das repartições federais que funcionavam na Terceira Alfândega foram transferidas para ali, e o prédio ficou parcialmente desocupado, logo demonstrando os sinais do abandono. A partir de 1962, ano da desocupação definitiva do imóvel pela Receita Federal, houve tentativas de demolição do mesmo por parte dos órgãos públicos. Por isso, a Terceira Casa da Alfândega de Salvador foi tombada, em 1966, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o que evitou o seu desaparecimento.
Em 1968, a Prefeitura executou algumas obras visando à estabilidade da rotunda, que se encontrava comprometida. Infelizmente, com essa intervenção, seria retirada a linda cimalha que a circundava. À época do incêndio do mercado modelo de 1969, o prédio começava a arruinar, após anos e anos de completo abandono. Por ocasião da instalação do Mercado Modelo, em 1971, o edifício seria restaurado, construindo-se um mezanino, onde foram instalados os sanitários, as salas de administração e uma barbearia.
Seguindo a sorte do antigo Mercado, no dia 10 de Janeiro de 1984, já em pleno funcionamento como sede do mercado modelo há mais de 12 anos, a Terceira Alfândega foi também atingido por um incêndio, o que causou inevitáveis prejuízos e danos à estrutura.
Com as obras de restauração que se seguiram, foi feita a recuperação dos túneis sustentados e arcados do subsolo, que constituem atualmente uma das atrações turísticas do Mercado Modelo. A explicação para a existência dos mesmos é atribuída à função de armazenamento de mercadorias que necessitavam de umidade, como vinhos. Por causa de um éero no cáculo do projeto, este espaço ficou parcialmente inundado. Segundo o historiador Paulo Ormindo de Azevedo, estes armazéns subterránoes do prédio
da Alfândega foram visitados pelo Imperador D. Pedro II em 1859, quando foi discutido a viabilidade da sua impermeabilizar os seus muros. Registros no acervo do IPHAN datados em 1923 também referem-se a um depósito, para armazenar vinho, existente sob a rotunda. Outro registro data da reforma de 1971, por ocasião da mudança de endereço do antigo Mercado Modelo, quando se constatou a existência de um espaço recoberto por diversas abóbadas.
Segundo uma lenda popular, os escravos recém-chegados da África ficavam nesses porões, aguardando o momento de serem leiloados. Por esse motivo, ruídos de correntes seriam ouvidos pelos vigias noturnos do Mercado. O historiador baiano Cid Teixeira e outros pesquisadores contestam essa lenda, já que à época da inauguração do prédio já havia sido proibida a importação de escravos em todo o país.
Com a reforma de 1984, o edificio da Terceira Alfândega passou por uma restauração completa, resgatando o plano arquitetônico original, mas introduzindo algumas modificações, como o uso de concreto pré-moldado, cobertura com telhas coloniais, escadas de ferro e um moderno sistema de prevenção de incêndios. Desde então, passou por vários outros trabalhos de embelezamento, até que mais recentemente (2011) ganhou um elevador interno, promovendo melhores condições de acessibilidade.