Os supermercados, a rainha, e o incêndio de 1969
A partir do final da década de 1950, a construção de estradas e a proliferação dos supermercados levaram, sucessivamente, a uma queda na importância do transporte marítimo, assim como das feiras e mercados, para o abastecimento da cidade. A partir de 1959, podem ser registradas iniciativas cada vez mais determinadas por parte da Prefeitura, do recém criado Conselho Municipal de Turismo e da Marinha (a proprietária da rampa) de subordinar a feira livre na rampa do mercado, culminando, entre 1962 e 1963, na remoção forçada de todas as barracas ali existentes. A maioria dos barraqueiros da feira livre foi transferida para os bairros do Chame-Chame e do Pau Miúdo, processo amplamente comentado na época, como não poderia deixar de ser, pelo grande Cuíca de Santo Amaro.
"De muito barraqueiro
Ficar desalojado
De uma noite para o dia
Lá na Rampa do Mercado
Enquanto o pequeno vive
Entregue a sua própria sorte
Hoje a rampa do Mercado
Vive limpa, sobre arame
"
Cuica de Santo Amâro
Quando da visita da família Real Inglesa a Salvador, em novembro de 1968, o então governador Luiz Viana Filho levou-os também para conhecer o Mercado Modelo. É conhecido o fato de que o Príncipe Philipp, naquela ocasião, tragou, de um único gole, um copo duplo da cachaça conhecida como "Suspiro de Virgem". Conta-se que a multidão se emocionou bastante com o gesto inesperado da parte do fidalgo inglés. A Rainha Elisabeth II, por sua vez, havia sido presenteada no local com uma penca de balangandãs, amuleto de tradição afro-brasileira difundido na músicas de Dorival Caymmi e Carmen Miranda anos antes. Não deu outra: as réplicas de balangandãs se tornaram, a partir de então, o artigo mais procurado pelos visitantes do Mercado, até os dias de hoje, efeito provocado pela presença na Bahia da maior celebridade da Inglaterra.
Em 1º de Agosto de 1969, passados cinco anos do incêndio trágico da feira de Água de Meninos, o Mercado Modelo sofreria um novo incêndio, aquele que decretou o seu fim. Entretanto, apesar do que as versões oficiais e artigos de jornais divulgaram na ocasião, o prédio não sofreu danos irreparaveis. Apenas o interiror e o telhado foram totalmente destruidos, ficando de pé as fachadas, as paredes externas e a portaria. Mesmo assim, não foi considerada a possibilidade de recuperação do prédio.
Na opinião de muitos, o então prefeito Antônio Carlos Magalhães teria priorizado à ampliação da estreita ligação entre as avenidas da França e Lafayete Coutinho (Contorno), impedida até então pela arquitetura opulenta do velho mercado. Poucos dias depois do incêndio, o que restara do imóvel era demolido, argumentando “questões de segurança pública”. Encerrou-se assim, de forma definitiva, a trajetória de um edifício de grande importância na história da cultura popular baiana. Em 1970, foi instalada em seu lugar uma escultura em fibra de vidro com 16 metros de altura, a "Fonte da Rampa do Mercado", encomendada pela Prefeitura ao artista plástico Mário Cravo Junior.