A partir da década de 1930, com o sucesso da rádio comercial e do samba começa-se a dar destaque e prestar o devido reconhecimento às práticas populares de cunho afro-brasileiro em geral. Inicia se, no Estado Novo, o processo de incorporação desses elementos como símbolos da identidade nacional. Na Bahia, o primeiro Congresso da Cultura Afro-Brasileira, organizado por Edison Carneiro e Áydano do Couto Ferraz, em 1936, e o reconhecimento oficial da capoeira através da inciativa fundação de Manoel dos Reis Machado, o Mestre Bimba, em 1937, são marcas históricas importantes deste processo.
Edison Carneiro explica, em um artigo publicado no Estado da Bahia em 1936:
"No dia do Ano-Bom, na Boa Viagem, na segunda-feira do Bonfim, na Ribeira, durante o Carnaval, no Terreiro, e durante as festas de Santa Bárbara, no mercado do mesmo nome, na Baixa dos Sapateiros, e da Senhora da Conceição da Praia, nas imediações do Mercado Modelo, as "rodas" de capoeira são infalíveis. [...]
Há alguns anos já que o jogo da capoeira tem começado a interessar as classes médias da população da Bahia."
Dessa forma, transforma-se
também a imagem das festas e feiras populares. Assim, já em 1936, em reportagens
sobre cruzeiros aportando em Salvador, os jornais falavam do Mercado Modelo
como um dos pontos de atração da cidade, que os turistas iriam querer visitar - "
Cidade cheia de turistas - O Mercado Modelo, com seus mil e uma bugigangas, atrae os visitantes."
Em 1937, Jorge Amado publica "Capitães de Areia", uma amarga descrição da vida dificil da população pobre da Cidade Baixa. Incompativel com a censura do Estado Novo, a primeira edição da obra foi queimada em praça pública, no dia 19 de novembro do mesmo ano. Ironicamente, o local escolhido para a fogueira era em frente à Escola de Aprendizes Marinheiros da Bahia, a poucos metros da rampa do Mercado Modelo.
Em 1938, chega a Salvador o jornalista, pintor e artista plástico
argentino Hector Júlio Páride de Bernabó, melhor conhecido como Carybé.
Trabalhou nas docas do porto e participou nas suas festas populares,
conheceu o mestre Bimba e aprendeu capoeira, e apaixonou-se na Bahia com
corpo e alma, "tarrafeado por sua luz, sua gente, seu mar e sua terra",
como ele mesmo disse. Por esse motivo, partiria para retornar alguns
anos depois com a firme intenção de aqui permanecer para sempre,
tornando-se, através dos seus desenhos e pinturas, um dos mais
importantes expoentes da cultura popular da Bahia.
Antes do final da década entra em cena também José Gomes, o Cuíca de
Santo Amaro, iniciando sua trajetória como famoso poeta-repórter-camelô
da cidade do Salvador e "
espécie de Gregório de Mattos do século XX, sem
gramática" (Odorico Tavares), revendendo os folhetos da barraca
Pernambucana do Mercado Modelo, ponto de venda de literatura de cordel.
1938 marca o inicio da parceria do Cuíca com Sinézio Alves de Jesus,
ilustrador de capas de folhetos e posteriormente também famoso
desenhista, que trabalhava fazendo caricaturas nas barbearias do Mercado
Modelo. Seis anos depois, em 1944, Jorge Amado iria comentar sobre
Cuíca:
"Cuíca de Santo Amaro é no mundo do Mercado Modelo uma personalidade importante. [...]
Se fizerdes um inquérito no mundo do Mercado Modelo e adjacências sobre poeta e poesia o único nome que ouvireis será o de Cuíca de Santo Amaro".