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Parte II: Década de 1920
Shopping dos anos 20 e feira livre da rampa ...

Não levou muito tempo para que o novo Mercado Modelo se tornasse um importante centro de abastecimento para a comercialização varejista de todo tipo de gêneros, da pimenta às carnes e da cachaça aos charutos. Os produtos encontrados obrigatoriamente no Mercado Modelo incluiam farinhas, carne de sertão, miúdos de porco e aves, peixes, camarões, frutas assim como verduras e pimentas frescas, procedentes das diversas regiões do Recôncavo da Bahia..

Havia vários açougues, a exemplo do açougue da Companhia Industrial Pastoril, ou da empresa Amado Bahia, que permitiam o abastecimento da chamada “carne verde” e demais produtos de origem animal. Além disso, o Mercado Modelo possuía, no seu interior, diversos outros serviços, tais como restaurantes, pontos de venda das cachaças de folha e batidas de frutas, barbearias, lojas de confecções, assim como casas de jogo, conferindo-lhe assim feições e funções semelhantes a um "shopping center".moderno - daí o ditado popular da época:  “entra-se no Mercado Modelo nu para sair dele comido e vestido”.
Mercado Modelo de Salvador, c. 1923
As obras do porto, iniciadas em 1907 e ainda em andamento na década de 1920, operavam uma completa modificação da antiga topografia da orla da Cidade Baixa, especialmente no trecho compreendido entre a Alfândega e a praia de Água de Meninos. Aqui, um aterro monumental engoliu todos os antigos trapiches, atracadouros, portos e cais. Estas mudanças provocavam grandes transformações no comércio informal naquela área. A este, perdidos os antigos pontos de referência, restava escoar suas atividades em duas direções: ao norte, para a chamada Feira do Sete (da qual se iria desenvolver, a partir da década de 1930, a feira de Água de Meninos) e ao sul, em direção à rampa do Mercado.

Assim, as redondezas do Mercado Modelo passaram a ser ocupadas por uma nova leva de comerciantes. A profusão de barracas e tabuleiros transformava a sua rampa em uma grande feira livre, onde eram comercializados todo tipo de folhas, raízes, frutos obis, orobôs, sabão da costa, terços, pembas, patuás, imagens de santos e de orixás, além de roupas usadas - produtos que correspondiam á demanda premente da população afro-descendente, que via ali atendida suas expectativas e necessidades, para sobrevivência e para a festa.

Dessa forma, alguns dos aspectos principais da cultura popular baiana se concentravam na área do mercado e de sua rampa, constituindo um universo particular em meio à cidade. Até hoje, a Rampa do Mercado Modelo e suas muitas tradições estão plenamente integrados à memória da cidade, consagrados em inúmeras letras de sambas, poemas de cordel e músicas de capoeira, assim como na literatura.

A essa altura, em meados da década de 1920, a vida colorida das festas e feiras populares  já havia capturado a curiosidade de jovens intelectuais e boêmios soteropolitanos, tais como Jorge Amado, Edison Carneiro, Áydano do Couto Ferraz, Guilherme Dias Gomes, João Cordeiro, Dias da Costa, Alves Ribeiro, Sosígenes Costa, Válter da Silveira e Clóvis Amorim. São deles as primeiras descrições literárias e etnográficas da vida na rampa do Mercado Modelo, da sua música, suas personagens e seus mistérios, hoje considerados, por alguns, como exemplos precoces do Modernismo Brasileiro na Bahia.

Escreve Jorge Amado:

"O Mercado Modelo é um mundo. Sua população não se confunde com nenhuma outra, seus interesses são próprios
[..] dominados inteiramente pelas crenças dos negros, sua religião, suas histórias e lendas, suas lutas e suas festas. Aqui São Jorge chama-se Oxóssi e Senhor do Bonfim Oxolufâ"

"
atravessávamos os dias e as noites nos cafés de literatos, mas sobretudo nas feiras, nos mercados, nas festinhas juninas, nas pensões de raparigas, nos saveiros, nas moquecas na Rampa do Mercado, no sarapatel nas Sete Portas, nas casas-de-santo, nos pejis dos orixás [..]"

"Se não no Mercado Modelo, podereis comprar as figas que vos livrarão de todo o mal,
[..] os fetiches dos candomblés, as ervas necessárias para os feitiços fortes, as redes magníficas, as cestas trancadas, os panos da costa, ou os búzios para a roupa de santo?"

 
 
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historia do mercado modelo, década de 1920